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10 fevereiro 2013

Morte Súbita


Livro: Morte Subita
Autor: J.K. Rowling
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 504
Sinopse: Quando Barry Fairbrother morre inesperadamente aos quarenta e poucos anos, a pequena cidade de Pagford fica em estado de choque. A aparência idílica do vilarejo, com uma praça de paralelepípedos e uma antiga abadia, esconde uma guerra. Ricos em guerra com os pobres, adolescentes em guerra com seus pais, esposas em guerra com os maridos, professores em guerra com os alunos… Pagford não é o que parece ser à primeira vista. A vaga deixada por Barry no Conselho Distrital logo se torna o catalisador para a maior guerra já vivida pelo vilarejo. Quem triunfará em uma eleição repleta de paixão, ambivalência e revelações inesperadas?

Foi difícil começar a leitura de “Morte Súbita”, primeiro livro de J.K. Rowling após a série Harry Potter, sem expectativas muito altas. Os livros anteriores de Rowling me acompanharam da infância até a adolescência, e ainda hoje estão sempre próximos à minha cabeceira para leituras aleatórias. Entretanto, ao abrir meu exemplar deste novo romance, ansioso, eu tinha consciência – adquirida após ler várias declarações da escritora – de que não se tratava de uma continuação disfarçada da saga anterior, e que, pelo contrário, não poderia ser mais diferente. Achei a mudança saudável e louvável, e contei os dias para ler a nova história que Rowling tinha para me contar. Infelizmente, o resultado não me agradou como esperava, embora não tenha me decepcionado por completo.

O enredo de “Morte Súbita” se inicia com a morte de Barry Fairbrother, membro do Conselho Paroquial da pequena cidade de Pagford. Acompanhamos por várias páginas o choque e o impacto que o acontecimento tem na vida dos habitantes locais, que, após um brevíssimo momento de surpresa e luto, empenham-se em uma guerra velada para decidir quem ocupará o assento do morto no Conselho. Acontece que próximo à Pagford há a região dos Fields (li a versão em inglês e não sei se a edição brasileira traduziu o nome para Campos ou coisa do tipo), área pobre que surgiu como um anexo da cidade grande vizinha, Yarvil, e aos poucos foi se tornando responsabilidade de Pagford. Membros importantes do Conselho – e boa parte de Pagford – consideram os Fields um atraso e um desperdício de dinheiro para a cidade, e empenham-se em eliminá-los do mapa municipal. Por outro lado, há aqueles que consideram que os Fields são parte de Pagford e não podem ser simplesmente desconsiderados, e era deste lado que Barry Fairbrother estava. Os pólos favorável e contrário aos Fields logo providenciam seus candidatos para ocupar “a vaga eventual” do título em inglês, e ataques surgem de um lado para outro – e de lados inesperados.

Mas antes que alguns desistam da leitura ao pensar que “Morte Súbita” se trata de um livro exclusivamente político, peço calma: mais do que uma história sobre as eleições locais, o romance é principalmente sobre a vida em Pagford. Acompanhamos os dilemas, os dramas, os desentendimentos, os relacionamentos e términos dos habitantes da cidadezinha. E aqui entra um dos pontos mais interessantes da trama: os adolescentes parecem continuar sendo um dos pontos fortes de Rowling. Os jovens são tridimensionais, complexos, com dilemas próprios da idade. E a inocência dos jovens bruxos da série Harry Potter está longe de “Morte Súbita”: aqui eles bebem, fumam, se drogam, fazem sexo casual e cometem bullying.


Por outro lado, “Morte Súbita” tem alguns problemas que atrapalharam, e muito, a sua leitura – tanto é que só terminei de lê-lo em meados de novembro, mesmo tendo começado assim que foi publicado em inglês, em setembro. A história demora muitas, muitas páginas para pegar ritmo. Até praticamente a metade do livro, pouquíssimas coisas acontecem em Pagford, e nos vemos simplesmente acompanhando pensamentos e acontecimentos passados de seus inúmeros personagens.

Este, aliás, é outro defeito do novo romance de Rowling: a história nos é contada da perspectiva de muitos personagens, o que acaba fazendo com que não consigamos de fato focar em nenhum. O que é uma grande qualidade da série “Crônicas de Gelo e Fogo” aqui simplesmente não funciona: enquanto no universo de George R. R. Martin a perspectiva-múltipla se faz necessária para que possamos compreender tudo que acontece nos Sete Reinos, aqui a ferramenta parece praticamente inútil, porque simplesmente não há tanta coisa assim acontecendo.

Mergulhar na mente de vários personagens não seria um problema, é claro, se eles fossem agradáveis. Não é o caso, infelizmente. Quase todos os personagens de “Morte Súbita” são asquerosos. Não que sejam mal-construídos (eu gosto, de verdade, do tom caricatural e estereotipado com que a autora os criou), eles são simplesmente pessoas nojentas. Quase todos. Alguns menos, outros mais, mas a grande maioria dos personagens cujos cotidianos acompanhamos é formada de seres desprezíveis e se criam em nós algum sentimento, não é aquele “amo-odiar” que sentimos por alguns vilões, mas a vontade de arrancar páginas do livro a cada vez que eles aparecem.

Se acompanhar um livro do ponto de vista de vários personagens asquerosos já é difícil, imagine um livro do ponto de vista de vários personagens asquerosos em que nada acontece. É nesta situação que “Morte Súbita” se vê por várias e várias páginas, e se não fosse pela qualidade narrativa sempre competente de Rowling, que consegue construir um texto muito bem trabalhado mesmo com uma escassez evidente de eventos, o livro seria largado após algumas páginas de leitura.

A habilidade da autora de escrever é óbvia, e só tenho uma crítica a fazer sobre isso: ela continua representando sotaques nas falas dos personagens. Isso não seria problema se acontecesse com apenas um personagem (como era o caso de Hagrid, na versão em inglês de Harry Potter), mas aqui um núcleo inteiro fala da mesma maneira, e quando começam a gritar (palavrões, principalmente) ao mesmo tempo a leitura torna-se um tanto cansativa (como li a versão em inglês, não faço ideia de como os tradutores representaram este sotaque. Pode ter ficado menos irritante).

Apesar disso, quando finalmente ganha ritmo, “Morte Súbita” prende nossa atenção e é quase impossível largar o livro. Tenho a impressão de que Rowling poderia ter condensado as duzentas primeiras páginas em alguns capítulos, pois isso faria do romance uma obra muito melhor do que é na forma em que foi publicado. Isso porque a segunda metade do livro é realmente excelente: coisas começam a acontecer, personagens se vêem em situações complicadíssimas, e somos guiados freneticamente até um final que me fez derramar lágrimas em público, enquanto o lia numa viagem de volta para casa. Rowling continua sabendo tocar exatamente na nossa ferida, e fez com que a única coisa que poderia ter me deixado triste acontecesse com uns dos poucos personagens que eu não odiava.


“Morte Súbita” é um bom livro, mas poderia ser melhor se não carregasse tantos personagens por tantas páginas desnecessárias. Uma vez engrenada, entretanto, a história prende, nos fazendo torcer, rir e até chorar por seus personagens exagerados, desprezíveis e egoístas. É uma prova de que Rowling pode sim se dar muito bem fora do gênero fantasia, se souber aprender com os erros desta obra em sua próxima, que, certamente, mais uma vez eu farei questão de ser um dos primeiros a ler.

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